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O Lobo de Kandalis [Parte 2 de 3]

03/04/2011

– Ali – ela sussurrou.

– Não estou vendo – ele respondeu, apavorado.

– Atrás dos três guardas mortos, abaixado, tá distraído enquanto engole a astara deles.

Talvez seja melhor recapitular o que houve com os dois caçadores até chegarem no ponto onde estamos. Após terem entrado na floresta próxima a Kandalis, em busca das bandeiras vermelhas de Leiret, foram surpreendidos várias vezes por nada menos que um lobo do tamanho de um urso adulto, que poderia muito bem tê-los devorado em três mordidas caso Runadun não tivesse desviado sua atenção para algumas almas mais desesperadas do outro lado da mata.

Também é bom lembrar que Runadun é um exorcista, companheiro de Helirya na Guilda dos Caçadores de Espíritos. Ele tem a incrível e útil habilidade de conseguir apagar rastros astáricos, o que é bem visto no campo de batalha contra os undri sedentos por energia espiritual, que passam então a buscar a fonte mais próxima de comida – já que poucos deles conseguem enxergar com os olhos das criaturas que possuem, orientam-se pelo seu faro astárico, que localiza especialmente as almas mais brilhantes e desesperadas que não querem de maneira alguma abandonar seus corpos mortais.

Após quase um dia inteiro sendo surpreendidos pela fera e desviando sua atenção, finalmente chegaram até a clareira onde Leiret estendera suas bandeiras. Essa aqui, com três soldados mortos e o lobo-undri destroçando seus cadáveres:

– Por que ele come a carne se não precisa dela?

– Ele não come – ele falou, baixinho – É só reflexo do lobo que ainda tá lá. Se olhar direito, vai ver que ele não tá nem aí pra carne; mastiga por mastigar.

– Que nojo.

– É.

– Vai demorar muito?

Helirya estava impaciente por dois motivos. Primeiro que Runadun costumava ser mais distraído do que o limite tolerável de qualquer pessoa; segundo que ela dependia dele fazer um ritual específico de exorcismo para poder dar um jeito num undri daquele tamanho.

E sim, ia demorar muito.

– Calma, eu preciso mastigar as folhas pra poder fazer do melhor jeito.

– Por isso o bafo de chá preto?

Ele ainda não tinha começado a mastigar as folhas, mas fez que sim com a cabeça.

– Eu vou dar a volta. Faça isso logo! – Helirya se afastou do rapaz, que no maior silêncio possível virou a bolsa do avesso em busca do que precisava.

A caçadora espreitou em torno da clareira, sorrateira como um lince branco no meio da neve. Mantinha um olho em Runadun e outro no monstro, que ainda ia demorar a terminar seu banquete. De algum modo, parecia que a consciência – fraca – do lobo ainda parecia se manifestar de alguma maneira, desconcertando o espírito que agora dominava e deformava o corpo do animal. Vez ou outra ele parava, como se não soubesse onde estava nem o que estava fazendo, para então seus olhos voltarem a brilhar e ele retomar o jantar.

– Droga! – ela soltou, baixinho, ao pisar num galho e fazer barulho.

O lobo olhou na direção dela. Ou pelo menos virou a cabeça na direção dela. Helirya estreitou os olhos e se concentrou no feitiço de desvio de astara que Runadun vinha mantendo há algum tempo. Usava um cordão em torno do pescoço como foco, e o tocou por precaução. O monstro pareceu não notá-la e voltou a comer. Absorver. Engolir. Essas coisas.

Agora no diâmetro oposto da clareira, Runadun praguejava baixinho por obviamente ter esquecido um dos ingredientes necessários – como sempre – e ser obrigado a improvisar o feitiço sem que Helirya percebesse – como sempre. Ele só não sabia que ela percebia mas fingia que não. Assim ela achava que de um jeito ou de outro estava o forçando a pensar em mil alternativas possíveis em vez de se fixar numa única rotina, o que tinha se provado certo até então e havia tornado o rapaz um grande exorcista.

O que Runadun havia esquecido dessa vez era algo relativamente simples de se encontrar: água. Claro que exorcistas preferiam água engarrafada tirada bem do meio de um rio com a correnteza forte – era melhor contra os espíritos, segundo eles. Claro que ali não havia nenhum rio correndo, a menos que as propriedades exorcistas fossem mantidas com eles congelados no meio da floresta (e não, não eram). Não restou alternativa ao rapaz além de pegar um punhado de neve e enfiar na boca para derretê-la, mastigando-a com os outros ingredientes (aos curiosos: folhas de salgueiro torradas, uma ou duas crisálidas de borboleta abandonadas, sementes de mostarda e a neve que dias antes servira de banheiro para alguns soldados de Kandalis). Fazia parte da rotina diária Helirya mandar o companheiro comer maçãs o dia todo para diminuir o hálito pavoroso que resultava de seus improvisos.

Lá do outro lado, atrás de uma árvore, a caçadora viu Runadun levantar-se vagarosamente e cuspir algo dentro de um frasco de vidro cujas paredes eram pouco mais espessas que dois fios de cabelo. Muito cauteloso, ele tocou na proteção no pescoço enquanto se aproximava da clareira, abandonando a camuflagem o mais furtivamente que conseguia. O lobo estava de costas para ele e não o viu fazendo um sinal afirmativo para Helirya.

Num átimo, Runadun lançou o frasco que acertou em cheio as costas do monstro, enquanto Helirya arremessava uma das suas últimas adagas-perenes em direção à criatura. Essas adagas também são chamadas de adagas-do-tempo e, se acertarem nos lugares certos de um undri, conseguem inibir sua manifestação e aprisioná-lo. Para prolongar um pouco a história, Helirya errou, a arma enterrando no pescoço do lobo, em vez de fincar no meio da testa, onde mirara. Praguejou. Agora teria que tirá-la de lá e enfiar no lugar certo.

(Nesse momento ela bem pensou que podia enfiá-la em outro lugar da criatura, mas sabia que isso não ia ajudar em nada além de aliviar um pouco a tensão da cena; é realmente uma pena que rir não teria efeito algum no espírito).

Pelo menos a poção-exorcista que Runadun atirara no monstro parecia ter surtido algum efeito. Não foi tão bom quanto o esperado (pedaços se desfazendo, espírito evanescendo, etc), mas conseguiu deixar o undri perdido e molenga, se contorcendo e cambaleando enquanto a ligação da sua alma e o corpo do lobo ficava mais frágil.

A parte boa é que o espírito estava enfraquecido. A parte ruim é que agora os dois teriam que lidar com um lobo-monstruoso-gigante-raivoso que não fazia ideia do que estava acontecendo, mas que sabia muito bem quem havia o atacado e estava muito irritado com isso.

– Era uma boa hora pra você chamar seus parentes, né, Runa?

De novo ela o chamava assim. De novo ele odiava, mas fazia sentido. “Runadun” significava algo como “filhote de fada”, e ele era motivo de piada para todos os seus amigos quando criança. “Chamar os parentes” seria algo como invocar toda a hoste feérica que vivia ali nas redondezas, mas o rapaz não sabia fazer isso e nem estava muito interessado em saber (não vamos entrar na questão de que fazer isso poderia ser mortal para todos os presentes; fica pra próxima).

Sim, era uma boa hora. Pra sair correndo, o que eles fizeram bem rápido.

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