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O Lobo de Kandalis [Parte 1 de 3]

03/04/2011

[Postado originalmente na Spell RPG]

Os dois tinham ido sozinhos desta vez. Não que algum dia tivessem trabalhado separados, mas agora estavam sem um grupo. Era o primeiro caso estritamente simples delegado a ambos, e isso deixava Helirya irritada. Onde já se viu, ela, uma exímia caçadora tendo que ir fazer serviço de novatos? Obviamente era um de seus pensamentos, mas eles também confabulavam sobre sua última briga com o capitão. Talvez ela tivesse exagerado e ele tenha se vingado com essa missão.

Runadun seguia ao seu lado, quieto como sempre. O rapaz quase não falava e era muito na dele. Cada tentativa de iniciar um assunto com o jovem sempre era um martírio. Ainda assim, já trabalhavam juntos há dois anos, quando ela passou a ser a tutora. Odiava ser a tutora.

– Frio, não? – ela falou, depois de quase um dia inteiro caminhando em silêncio pela estrada. Sim, estava frio.
Runadun pareceu considerar a questão.

– Se levar em consideração o fato de que estamos no meio do inverno, realmente, está frio. Mas falar sobre o clima significa que não tem assunto, né? – ele disse, com seu senso de humor desligado.

– Tá mal hoje, hein? – disse ela, jogando algumas bolas de neve metafóricas na nuca de Runadun.

– Só não estou muito falante. Sabe como é, andar nesse frio cansa, ainda mais depois da nevasca de anteontem.

A tempestade de duas noites atrás havia deixado os dois quase perdidos em meio a um bosque que atravessaram. A sorte é que a caçadora parecia ter uma bússola enfiada na cabeça em alguma cirurgia obscura no passado.

– Como se você normalmente fosse de falar muito, Runa. – ela provocou. Sabia que o colega já não gostava muito do nome, ainda mais quando ela o resumia a um apelido. Runadun ficou quieto.

Se ela fosse parar para pensar – e já estava o fazendo – ele não era de se jogar fora. Era um rapaz bonito e interessante ao seu modo, só precisava deixar de ser tão frio e distante com as pessoas. Mesmo ele sendo alguns anos mais novo que ela, não faria lá muita diferença.

E então parou de pensar.

Se Helirya soubesse que Runadun pensava exatamente a mesma coisa, mas achava uma idiotice sem tamanho se interessar por uma superiora, ela provavelmente já teria cedido às próprias vontades há muito tempo atrás.
– É ali, não? – os pensamentos da tutora foram cortados pelo exorcista.

Runadun apontava para a cidade. Não tinham visto até então, pois ela ficava bem na curva do final das montanhas, sendo que podia ser vislumbrada apenas pelos que passassem bem em frente aos seus portões e à sua muralha de pedra, que naquela época do ano ficava quase branca. Forte Kandalis havia sido uma cidade esplendorosa num passado distante, mas agora não passava de uma fortaleza velha com um punhado de casas em volta.

Deixando pegadas fundas na neve, que era mais espaçada próxima aos portões, Runadun foi à frente de Helirya para falar com um dos guardas. O homem parecia assustado, mas se aliviou ao ver o brasão prateado da Guilda preso ao sobretudo escuro da caçadora.

– São vocês os senhores Runadun de Minta e Helirya Nusura, da Guilda dos Caçadores? – perguntou o guarda, com um tom de voz que exalava o óbvio de maneira quase vergonhosa.

– Er, sim. – respondeu o rapaz; a mulher sorriu não muito discretamente.

– O Marquês os espera – disse o guarda. – Me acompanhem, por favor.

A recepção dos dois foi quase que um evento único na cidade. A vila em torno do castelo estava quieta, com as casas soltando seus filetes de fumaça cinzenta. As pessoas se protegiam do frio, mas, aqui e ali, se via uma senhora curiosa emoldurada por uma janela aberta. Não demorou muito, várias crianças passaram a descer as ruas para poderem conhecer de perto as duas pessoas que caçariam o monstro que assolava o lugar há duas semanas.

No entanto, o silêncio se mantia. Os olhos das crianças brilhavam com uma luz de felicidade, e os das mulheres, de esperança. Subiram a escadaria em ziguezague que levava ao castelo acima da alta muralha do forte antigo, que fora construído nas raízes da montanha.

O guarda se afastou nos últimos degraus, quando percebeu que o soberano da região os aguardava apoiado na amurada do forte, olhando para o vale e a floresta distantes. Runadun se sentiu levementemais estranho que o normal – o soberano, assim como ele, eram os únicos ruivos em meio a tanta gente de cabelos e olhos escuros.

– Bem vindos a Kandalis – disse o marquês, com uma voz jovem, que destoava de sua idade real – espero que tenham tido uma boa viagem.

– Tivemos, senhor. Fico grata por se preocupar. – disse Helirya, meneando a cabeça. Runadun, ainda que conhecesse a caçadora há quase cinco anos, ainda se surpreendia com a capacidade dela de mudar completamente o modo de falar dependendo de a quem se dirigia.

– Fico feliz em saber disso, senhora Nusura. Mas temo que tenhamos que continuar nossa conversa mais tarde e começarmos a caça imediatamente. – ele disse, assim que viu sinais distantes em meio às árvores da mata. A voz do homem estava carregada de preocupação.

– Senhor Dimiron – disse o guarda ao marquês –, aquelas bandeiras são as do Capitão Leiret. Vou acionar a tropa de Kalos.

O senhor de Kandalis fitou as três hastes com o tecido vermelho desfraldado balançando-se freneticamente sobre as copas das árvores.

– Peço desculpas por não poder lhes dar descanso depois de um dia de viagem. Mas não há outra alternativa senão lutar. Lanarui foi chamar a última tropa que temos em condições de lutar contra aquela coisa.

– Não há problema algum, senhor. – disse Runadun pela primeira vez (apenas para ter dito alguma coisa).

– Antes, no entanto, gostaríamos de saber mais sobre o que vamos enfrentar. Saímos da nossa sede com pressa e sem muitas informações, mas nos disseram que era um caso comum. – cortou a tutora.

Ou, na mente da caçadora, “Droga. Caso complexo e pagaram adiantado como caso comum. Odeio quando fazem isso.”

– Claro, claro. – ele não desviava os olhos das bandeiras tremulando – De fato, quando os chamamos, era um caso comum, eu diria até mesmo corriqueiro. Um lobo-undri foi visto nos limites da orla da floresta próxima à muralha, e os camponeses que vivem nas fazendas fora do castelo buscaram abrigo na cidade. Isso foi há duas semanas, ainda no mês passado. O animal era arisco e o espírito estava quase despertando – ele suspirou –; por isso achei melhor chamá-los. Estou com poucos soldados.

– Quase despertando? Há duas semanas!? – Helirya não conseguiu segurar a surpresa.

– Sim. Fui um tolo. Deveria ter chamado vocês antes, mas não pude. Perdi seis dos meus soldados. A criatura já está desperta e conseguiu passar pela muralha duas vezes. Foi milagre que tenhamos conseguido repeli-la de volta à mata. Leiret é meu melhor capitão, e se hasteou as bandeiras, significa que nem mesmo sua tropa conseguiu bons resultados.

Os caçadores se entreolharam. Já haviam enfrentado vários undri despertos antes, mas sempre estavam em um grupo, não em dupla. Duplas faziam trabalho de reconhecimento e raramente se aventuravam com undris semidespertos, quanto mais os completamente conscientes.

– Marquês… não garanto que vamos destruir aquele undri, mas lhe asseguro que faremos o possível – disse Helirya, se recompondo.

– Agradeço a compreensão. Vou chamar um dos guardas do castelo para guiá-los até lá. – Dimiron ergueu uma das mãos, mas foi impedido delicadamente pela caçadora.

– Não precisa, senhor. É só ir até aquelas bandeiras, certo? – ele confirmou com a cabeça – Pode deixar que vamos até lá. Toda segurança no castelo é necessária. Mantenha as pessoas dentro de casa.

Dimiron ficou em silêncio por um instante. Eram raras as pessoas que interrompiam um nobre. Mas ainda mais raras as que não seguiam uma ordem, ainda que sucinta e subliminar, de Helirya.

– Ah, sim. À vontade, senhores. – ele se retirou com ar contrariado em direção à porta de madeira escura do forte.

Os dois caçadores contratados ficaram em silêncio por alguns minutos. As três bandeiras vermelhas se destacavam absurdamente em meio às árvores de um verde escurecido, coberto pela neve que caía todos os dias pela manhã e ao entardecer nesta época do ano. Runadun suspirou.

– Fazer o quê? – disse Helirya – Vamos de uma vez.

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