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Caçadores

29/05/2011

Helirya e Runadun, protagonistas de O Lobo de Kandalis. Isso aí talvez seja uma ilustração de um conto futuro, quando eles já estiverem todo-poderosos chutando a bunda de espíritos imanes.

O Lobo de Kandalis [Parte 3 de 3]

03/04/2011

A princípio tudo correu como Runadun esperava: o frasco se despedaçou espalhando a substância encantada e debilitando a criatura. Foi o suficiente para os dois correrem para longe enquanto o lobo voltava seu focinho gigante na direção da sua nova presa. Correram em meio às árvores, afundando aqui e ali na neve, retomando fôlego e se mantendo um na vista do outro, ainda que não muito próximos. O feitiço de desvio de rastro não servia de nada contra o lobo, que agora os farejava de verdade, e não com um radar espiritual embutido na cabeça. Ora aqui, ora ali o monstro estancava e se contorcia: sinal de que o espírito estava retomando seu corpo.

– Helirya, o que pretende fazer? – disse Runadun, quando se encontraram numa reentrância escondida de uma árvore velha.

Ela o olhou com aquela cara que as pessoas fazem quando alguém deliberadamente joga a responsabilidade de tudo nas mãos dela como se fosse um presente muito especial.

– Primeiro, faça outra daquela nojeira que fez agora há pouco. O efeito daquela já tá passando, e não vai adiantar eu jogar uma adaga nele do jeito que está.

Não ia mesmo. Com uma adaga-perene já enfiada num lugar errado, o espírito invasor ficava vagando que nem louco pelo corpo. Ele teria que ser debilitado do jeito certo pro exorcismo fazer efeito.

Runadun respirou fundo e obedeceu, pegando mais um pouco de neve do chão e mastigando-a com toda a vontade do mundo, com todas as outras coisas do feitiço. Helirya levantou-se devagar, e olhou por entre as frestas das raízes. O lobo estava parado e olhando diretamente para onde estavam.

Êba, ela pensou com ironia.

Êba, o lobo também pensou (mas sem ironia alguma), e foi andando com toda calma que um animal deformado meio-possuído pode ter na direção do esconderijo.

Droga, pensou Runadun, pois seus frascos usados como granadas haviam acabado. Ele cutucou a companheira, que olhou para ele por tempo suficiente para vê-lo com as bochechas cheias e apontando-as com os indicadores. Revirou os olhos e voltou a encarar o lobo. Pena que ele não estava mais lá.

– Corre, menino! – ela disse, saindo correndo. Runadun correu na direção oposta. Não viram o lobo em lugar algum, o que aparentemente deu a eles o direito de gritar no meio da floresta.

– Você vai ter que cuspir isso nele! – ela berrou.

Ele já tinha concluído aquilo, já estava tremendo de medo por isso e infelizmente não poderia gritar de volta a xingando, por razões óbvias.

Acabou que os dois se encontraram novamente, e nem sinal do lobo. Runadun imaginava que o espírito havia retomado o corpo da criatura, e seu feitiço estava os tornando invisíveis. Por isso o sumiço. Num rompante de coragem nunca antes demonstrado, arrancou o pingente que o protegia, e fez sinal para Helirya fazer o mesmo. Atiraram os colares para longe, fazendo com que em menos de alguns minutos o seu perseguidor aparecesse.

– Boa sorte! – ela sussurrou.

– ! – ele não disse.

Estavam de frente para o lobo. Ele avançou num salto assustador, e foi atingido em cheio no peito pela cusparada do exorcista, o que deixou o animal tonto e o fez tombar, estrebuchando por alguns segundos e ficando imóvel em seguida. Aquilo não ia durar muito tempo, mas foi o suficiente para os dois caçadores se aproximarem mais: Runadun agora entoando seus mantras de expulsão enquanto Helirya mirava sua última adaga-perene na cabeçorra cambaleante do monstro.

Dessa vez ela ia acertar (mesmo).

Vamos olhar bem para a adaga enquanto ela voa pelo ar. Sua lâmina é do mesmo tamanho que a distância do punho à ponta do dedo médio de Helirya, e foi forjada especialmente para ela, como eram feitas quase todas as adagas-perenes de quase todos os caçadores. Feita de ferro puro e tratado por semanas com rituais específicos, era praticamente inútil quando usada como uma adaga comum – como quando a caçadora usava alguma delas para descascar batatas, despertando ataques de fúria em Runadun.

Então ela acertou (como já previsto).

Quando uma adaga-perene penetra o suficiente no corpo de um hospedeiro a ponto de atingir muito bemuma parte do seu sistema nervoso, seu encanto é ativado e funciona como uma chave.

Ou uma válvula. Talvez um interruptor. Fato é que ela não expulsa o espírito do corpo de seu hospedeiro, mas corta suas amarrações com o controle do mesmo: o invasor fica preso na carne que quis invadir, e sem domínio algum sobre ela. Caso não acerte direito, o espírito só fica com dificuldade em controlar o corpo, e a consciência do hospedeiro se manifesta com mais força.

O melhor é que pra acabar logo a história, Helirya acertou bem no meio dos olhos do lobo; a lâmina da adaga se enfiou quase inteira no crânio do monstro, prendendo o espírito ao mesmo tempo em que o animal morria. Ossos do ofício. Nem sempre era possível manter o hospedeiro vivo, especialmente quando ele é um monstro de três metros de altura ensandecido.

Ainda com a adaga enfiada na besta, Runadun recitou as últimas palavras do exorcismo, expulsando definitivamente o invasor de volta para o Outro Mundo. Helirya cortou a cabeça do lobo, não só para garantir que nenhum espírito tentasse possui-lo novamente, mas principalmente para provar que o trabalho estava terminado. Enrolou-a num pedaço de pano preto e jogou nas costas feito uma mochila.

– Hora de falar com o nosso marquês – disse.

– E cobrar a diferença?

– Como sempre – suspirou – o que esses nobres têm na cabeça? Todos mesquinhos e filhos da mãe que não hesitam em torrar todo o ouro que têm nas feiras da capital, mas que se recusam em pagar por um serviço decente da Guilda.

– É assim que continuam ricos.

– É. É assim.

Resmungando e praguejando, os dois voltaram a Kandalis.

Vamos cortar para a parte mais legal. Pessoas na cidade agradecendo, crianças sorrindo felizes, soldados ovacionando sua passagem, adolescentes aspirantes a soldados ovacionando sua passagem curiosos pela nova mochila ensangüentada de Helirya, etc. E lá estava o marquês no topo da escadaria do castelo.

– Isso vale cinco vezes o que nos pagou, Dimiron.

Helirya era conhecida por ser capaz de causar, com uma frase, o mesmo efeito de chutar uma porta de madeira e derrubá-la no meio de uma briga de taverna. E parar a briga. Nesse caso, a frase foi acompanhada por uma cabeça de lobo gigante atirada aos pés do marquês.

Ele não fez nada além de ficar quieto e apertar as têmporas.

– E caso não queira pagar, meu amigo aqui é capaz de quebrar os feitiços que fez, só pro espírito voltar e perambular por aí de novo.

Claro que Runadun não era capaz de fazer isso. Era contra seus princípios, completamente proibido pelo regimento interno da Guilda, mas acima disso tudo era especialmente útil para exigir pagamentos decentes. É claro que o marquês não fazia ideia disso, apesar de suspeitar severamente dos métodos nada éticos de Helirya como caçadora.

– São negócios, acima de tudo – disse, enfim, sem tirar os olhos da cabeça monstruosa no chão, que o convenceu muito bem – Justo. Terão seu pagamento.

– E uma recomendação. – Helirya emendou.

Ele a encarou, incrédulo, como se ela tivesse dito que a mãe de alguém parecia gorda, pouco antes de ser queimada num funeral.

– E uma recomendação – concordou ele. – Mandarei meus mensageiros espalharem seu feitos nos feudos vizinhos e louvar os serviços da Guilda. Obrigado, senhora Nusura.

– Disponha. – ela sorriu como se a missão tivesse sido a coisa mais fácil que já fizera. Sempre fazia isso: aumentava sua fama de durona enquanto seu ego era alimentado pela cara de medo que as pessoas faziam ao encará-la. Runadun não fazia nada além de suspirar.

Assim que receberam suas cartas comerciais assinadas por Dimiron, além de algumas moedas trocadas para uso por ali mesmo, passaram na feira da cidade para repor ingredientes, afiar suas armas e descansar numa hospedaria, do modo mais espalhafatoso e incrível possível, como

Helirya gostava de marcar sua passagem. No fim das contas, de Kandalis levaram seu ouro, um pouco mais de fama e algumas quinquilharias novas.

Runadun comprou frascos de vidro. Helirya comprou muitas maçãs.

O Lobo de Kandalis [Parte 2 de 3]

03/04/2011

– Ali – ela sussurrou.

– Não estou vendo – ele respondeu, apavorado.

– Atrás dos três guardas mortos, abaixado, tá distraído enquanto engole a astara deles.

Talvez seja melhor recapitular o que houve com os dois caçadores até chegarem no ponto onde estamos. Após terem entrado na floresta próxima a Kandalis, em busca das bandeiras vermelhas de Leiret, foram surpreendidos várias vezes por nada menos que um lobo do tamanho de um urso adulto, que poderia muito bem tê-los devorado em três mordidas caso Runadun não tivesse desviado sua atenção para algumas almas mais desesperadas do outro lado da mata.

Também é bom lembrar que Runadun é um exorcista, companheiro de Helirya na Guilda dos Caçadores de Espíritos. Ele tem a incrível e útil habilidade de conseguir apagar rastros astáricos, o que é bem visto no campo de batalha contra os undri sedentos por energia espiritual, que passam então a buscar a fonte mais próxima de comida – já que poucos deles conseguem enxergar com os olhos das criaturas que possuem, orientam-se pelo seu faro astárico, que localiza especialmente as almas mais brilhantes e desesperadas que não querem de maneira alguma abandonar seus corpos mortais.

Após quase um dia inteiro sendo surpreendidos pela fera e desviando sua atenção, finalmente chegaram até a clareira onde Leiret estendera suas bandeiras. Essa aqui, com três soldados mortos e o lobo-undri destroçando seus cadáveres:

– Por que ele come a carne se não precisa dela?

– Ele não come – ele falou, baixinho – É só reflexo do lobo que ainda tá lá. Se olhar direito, vai ver que ele não tá nem aí pra carne; mastiga por mastigar.

– Que nojo.

– É.

– Vai demorar muito?

Helirya estava impaciente por dois motivos. Primeiro que Runadun costumava ser mais distraído do que o limite tolerável de qualquer pessoa; segundo que ela dependia dele fazer um ritual específico de exorcismo para poder dar um jeito num undri daquele tamanho.

E sim, ia demorar muito.

– Calma, eu preciso mastigar as folhas pra poder fazer do melhor jeito.

– Por isso o bafo de chá preto?

Ele ainda não tinha começado a mastigar as folhas, mas fez que sim com a cabeça.

– Eu vou dar a volta. Faça isso logo! – Helirya se afastou do rapaz, que no maior silêncio possível virou a bolsa do avesso em busca do que precisava.

A caçadora espreitou em torno da clareira, sorrateira como um lince branco no meio da neve. Mantinha um olho em Runadun e outro no monstro, que ainda ia demorar a terminar seu banquete. De algum modo, parecia que a consciência – fraca – do lobo ainda parecia se manifestar de alguma maneira, desconcertando o espírito que agora dominava e deformava o corpo do animal. Vez ou outra ele parava, como se não soubesse onde estava nem o que estava fazendo, para então seus olhos voltarem a brilhar e ele retomar o jantar.

– Droga! – ela soltou, baixinho, ao pisar num galho e fazer barulho.

O lobo olhou na direção dela. Ou pelo menos virou a cabeça na direção dela. Helirya estreitou os olhos e se concentrou no feitiço de desvio de astara que Runadun vinha mantendo há algum tempo. Usava um cordão em torno do pescoço como foco, e o tocou por precaução. O monstro pareceu não notá-la e voltou a comer. Absorver. Engolir. Essas coisas.

Agora no diâmetro oposto da clareira, Runadun praguejava baixinho por obviamente ter esquecido um dos ingredientes necessários – como sempre – e ser obrigado a improvisar o feitiço sem que Helirya percebesse – como sempre. Ele só não sabia que ela percebia mas fingia que não. Assim ela achava que de um jeito ou de outro estava o forçando a pensar em mil alternativas possíveis em vez de se fixar numa única rotina, o que tinha se provado certo até então e havia tornado o rapaz um grande exorcista.

O que Runadun havia esquecido dessa vez era algo relativamente simples de se encontrar: água. Claro que exorcistas preferiam água engarrafada tirada bem do meio de um rio com a correnteza forte – era melhor contra os espíritos, segundo eles. Claro que ali não havia nenhum rio correndo, a menos que as propriedades exorcistas fossem mantidas com eles congelados no meio da floresta (e não, não eram). Não restou alternativa ao rapaz além de pegar um punhado de neve e enfiar na boca para derretê-la, mastigando-a com os outros ingredientes (aos curiosos: folhas de salgueiro torradas, uma ou duas crisálidas de borboleta abandonadas, sementes de mostarda e a neve que dias antes servira de banheiro para alguns soldados de Kandalis). Fazia parte da rotina diária Helirya mandar o companheiro comer maçãs o dia todo para diminuir o hálito pavoroso que resultava de seus improvisos.

Lá do outro lado, atrás de uma árvore, a caçadora viu Runadun levantar-se vagarosamente e cuspir algo dentro de um frasco de vidro cujas paredes eram pouco mais espessas que dois fios de cabelo. Muito cauteloso, ele tocou na proteção no pescoço enquanto se aproximava da clareira, abandonando a camuflagem o mais furtivamente que conseguia. O lobo estava de costas para ele e não o viu fazendo um sinal afirmativo para Helirya.

Num átimo, Runadun lançou o frasco que acertou em cheio as costas do monstro, enquanto Helirya arremessava uma das suas últimas adagas-perenes em direção à criatura. Essas adagas também são chamadas de adagas-do-tempo e, se acertarem nos lugares certos de um undri, conseguem inibir sua manifestação e aprisioná-lo. Para prolongar um pouco a história, Helirya errou, a arma enterrando no pescoço do lobo, em vez de fincar no meio da testa, onde mirara. Praguejou. Agora teria que tirá-la de lá e enfiar no lugar certo.

(Nesse momento ela bem pensou que podia enfiá-la em outro lugar da criatura, mas sabia que isso não ia ajudar em nada além de aliviar um pouco a tensão da cena; é realmente uma pena que rir não teria efeito algum no espírito).

Pelo menos a poção-exorcista que Runadun atirara no monstro parecia ter surtido algum efeito. Não foi tão bom quanto o esperado (pedaços se desfazendo, espírito evanescendo, etc), mas conseguiu deixar o undri perdido e molenga, se contorcendo e cambaleando enquanto a ligação da sua alma e o corpo do lobo ficava mais frágil.

A parte boa é que o espírito estava enfraquecido. A parte ruim é que agora os dois teriam que lidar com um lobo-monstruoso-gigante-raivoso que não fazia ideia do que estava acontecendo, mas que sabia muito bem quem havia o atacado e estava muito irritado com isso.

– Era uma boa hora pra você chamar seus parentes, né, Runa?

De novo ela o chamava assim. De novo ele odiava, mas fazia sentido. “Runadun” significava algo como “filhote de fada”, e ele era motivo de piada para todos os seus amigos quando criança. “Chamar os parentes” seria algo como invocar toda a hoste feérica que vivia ali nas redondezas, mas o rapaz não sabia fazer isso e nem estava muito interessado em saber (não vamos entrar na questão de que fazer isso poderia ser mortal para todos os presentes; fica pra próxima).

Sim, era uma boa hora. Pra sair correndo, o que eles fizeram bem rápido.

O Lobo de Kandalis [Parte 1 de 3]

03/04/2011

[Postado originalmente na Spell RPG]

Os dois tinham ido sozinhos desta vez. Não que algum dia tivessem trabalhado separados, mas agora estavam sem um grupo. Era o primeiro caso estritamente simples delegado a ambos, e isso deixava Helirya irritada. Onde já se viu, ela, uma exímia caçadora tendo que ir fazer serviço de novatos? Obviamente era um de seus pensamentos, mas eles também confabulavam sobre sua última briga com o capitão. Talvez ela tivesse exagerado e ele tenha se vingado com essa missão.

Runadun seguia ao seu lado, quieto como sempre. O rapaz quase não falava e era muito na dele. Cada tentativa de iniciar um assunto com o jovem sempre era um martírio. Ainda assim, já trabalhavam juntos há dois anos, quando ela passou a ser a tutora. Odiava ser a tutora.

– Frio, não? – ela falou, depois de quase um dia inteiro caminhando em silêncio pela estrada. Sim, estava frio.
Runadun pareceu considerar a questão.

– Se levar em consideração o fato de que estamos no meio do inverno, realmente, está frio. Mas falar sobre o clima significa que não tem assunto, né? – ele disse, com seu senso de humor desligado.

– Tá mal hoje, hein? – disse ela, jogando algumas bolas de neve metafóricas na nuca de Runadun.

– Só não estou muito falante. Sabe como é, andar nesse frio cansa, ainda mais depois da nevasca de anteontem.

A tempestade de duas noites atrás havia deixado os dois quase perdidos em meio a um bosque que atravessaram. A sorte é que a caçadora parecia ter uma bússola enfiada na cabeça em alguma cirurgia obscura no passado.

– Como se você normalmente fosse de falar muito, Runa. – ela provocou. Sabia que o colega já não gostava muito do nome, ainda mais quando ela o resumia a um apelido. Runadun ficou quieto.

Se ela fosse parar para pensar – e já estava o fazendo – ele não era de se jogar fora. Era um rapaz bonito e interessante ao seu modo, só precisava deixar de ser tão frio e distante com as pessoas. Mesmo ele sendo alguns anos mais novo que ela, não faria lá muita diferença.

E então parou de pensar.

Se Helirya soubesse que Runadun pensava exatamente a mesma coisa, mas achava uma idiotice sem tamanho se interessar por uma superiora, ela provavelmente já teria cedido às próprias vontades há muito tempo atrás.
– É ali, não? – os pensamentos da tutora foram cortados pelo exorcista.

Runadun apontava para a cidade. Não tinham visto até então, pois ela ficava bem na curva do final das montanhas, sendo que podia ser vislumbrada apenas pelos que passassem bem em frente aos seus portões e à sua muralha de pedra, que naquela época do ano ficava quase branca. Forte Kandalis havia sido uma cidade esplendorosa num passado distante, mas agora não passava de uma fortaleza velha com um punhado de casas em volta.

Deixando pegadas fundas na neve, que era mais espaçada próxima aos portões, Runadun foi à frente de Helirya para falar com um dos guardas. O homem parecia assustado, mas se aliviou ao ver o brasão prateado da Guilda preso ao sobretudo escuro da caçadora.

– São vocês os senhores Runadun de Minta e Helirya Nusura, da Guilda dos Caçadores? – perguntou o guarda, com um tom de voz que exalava o óbvio de maneira quase vergonhosa.

– Er, sim. – respondeu o rapaz; a mulher sorriu não muito discretamente.

– O Marquês os espera – disse o guarda. – Me acompanhem, por favor.

A recepção dos dois foi quase que um evento único na cidade. A vila em torno do castelo estava quieta, com as casas soltando seus filetes de fumaça cinzenta. As pessoas se protegiam do frio, mas, aqui e ali, se via uma senhora curiosa emoldurada por uma janela aberta. Não demorou muito, várias crianças passaram a descer as ruas para poderem conhecer de perto as duas pessoas que caçariam o monstro que assolava o lugar há duas semanas.

No entanto, o silêncio se mantia. Os olhos das crianças brilhavam com uma luz de felicidade, e os das mulheres, de esperança. Subiram a escadaria em ziguezague que levava ao castelo acima da alta muralha do forte antigo, que fora construído nas raízes da montanha.

O guarda se afastou nos últimos degraus, quando percebeu que o soberano da região os aguardava apoiado na amurada do forte, olhando para o vale e a floresta distantes. Runadun se sentiu levementemais estranho que o normal – o soberano, assim como ele, eram os únicos ruivos em meio a tanta gente de cabelos e olhos escuros.

– Bem vindos a Kandalis – disse o marquês, com uma voz jovem, que destoava de sua idade real – espero que tenham tido uma boa viagem.

– Tivemos, senhor. Fico grata por se preocupar. – disse Helirya, meneando a cabeça. Runadun, ainda que conhecesse a caçadora há quase cinco anos, ainda se surpreendia com a capacidade dela de mudar completamente o modo de falar dependendo de a quem se dirigia.

– Fico feliz em saber disso, senhora Nusura. Mas temo que tenhamos que continuar nossa conversa mais tarde e começarmos a caça imediatamente. – ele disse, assim que viu sinais distantes em meio às árvores da mata. A voz do homem estava carregada de preocupação.

– Senhor Dimiron – disse o guarda ao marquês –, aquelas bandeiras são as do Capitão Leiret. Vou acionar a tropa de Kalos.

O senhor de Kandalis fitou as três hastes com o tecido vermelho desfraldado balançando-se freneticamente sobre as copas das árvores.

– Peço desculpas por não poder lhes dar descanso depois de um dia de viagem. Mas não há outra alternativa senão lutar. Lanarui foi chamar a última tropa que temos em condições de lutar contra aquela coisa.

– Não há problema algum, senhor. – disse Runadun pela primeira vez (apenas para ter dito alguma coisa).

– Antes, no entanto, gostaríamos de saber mais sobre o que vamos enfrentar. Saímos da nossa sede com pressa e sem muitas informações, mas nos disseram que era um caso comum. – cortou a tutora.

Ou, na mente da caçadora, “Droga. Caso complexo e pagaram adiantado como caso comum. Odeio quando fazem isso.”

– Claro, claro. – ele não desviava os olhos das bandeiras tremulando – De fato, quando os chamamos, era um caso comum, eu diria até mesmo corriqueiro. Um lobo-undri foi visto nos limites da orla da floresta próxima à muralha, e os camponeses que vivem nas fazendas fora do castelo buscaram abrigo na cidade. Isso foi há duas semanas, ainda no mês passado. O animal era arisco e o espírito estava quase despertando – ele suspirou –; por isso achei melhor chamá-los. Estou com poucos soldados.

– Quase despertando? Há duas semanas!? – Helirya não conseguiu segurar a surpresa.

– Sim. Fui um tolo. Deveria ter chamado vocês antes, mas não pude. Perdi seis dos meus soldados. A criatura já está desperta e conseguiu passar pela muralha duas vezes. Foi milagre que tenhamos conseguido repeli-la de volta à mata. Leiret é meu melhor capitão, e se hasteou as bandeiras, significa que nem mesmo sua tropa conseguiu bons resultados.

Os caçadores se entreolharam. Já haviam enfrentado vários undri despertos antes, mas sempre estavam em um grupo, não em dupla. Duplas faziam trabalho de reconhecimento e raramente se aventuravam com undris semidespertos, quanto mais os completamente conscientes.

– Marquês… não garanto que vamos destruir aquele undri, mas lhe asseguro que faremos o possível – disse Helirya, se recompondo.

– Agradeço a compreensão. Vou chamar um dos guardas do castelo para guiá-los até lá. – Dimiron ergueu uma das mãos, mas foi impedido delicadamente pela caçadora.

– Não precisa, senhor. É só ir até aquelas bandeiras, certo? – ele confirmou com a cabeça – Pode deixar que vamos até lá. Toda segurança no castelo é necessária. Mantenha as pessoas dentro de casa.

Dimiron ficou em silêncio por um instante. Eram raras as pessoas que interrompiam um nobre. Mas ainda mais raras as que não seguiam uma ordem, ainda que sucinta e subliminar, de Helirya.

– Ah, sim. À vontade, senhores. – ele se retirou com ar contrariado em direção à porta de madeira escura do forte.

Os dois caçadores contratados ficaram em silêncio por alguns minutos. As três bandeiras vermelhas se destacavam absurdamente em meio às árvores de um verde escurecido, coberto pela neve que caía todos os dias pela manhã e ao entardecer nesta época do ano. Runadun suspirou.

– Fazer o quê? – disse Helirya – Vamos de uma vez.

E o OPERA revive!

09/06/2009

Como se um dia tivesse morrido. 😛

Logo 02

Bem, estamos aí. O site oficial do sistema voltou à ativa, agora todo bonitão, com textos legais e explicações interessantes sobre a história do sistema, coisa que muita gente não conhece e deveria saber, não só por curiosidade, mas pela relevância que o mesmo teve pro RPG nacional.

… mas esse post aqui não é só pra dar esse aviso.

Também é para dizer que pouco antes do RPGOPERA.tk voltar ao ar, assaltei o computador do Roj e peguei uns arquivos crus da reformulação do sistema – o ReOps. Essa “nova versão”, que nada mais é do que um simples chacoalhão no sistema, para melhor, ficou tão legal que mexi nela. Visualmente falando.

Você pode dar uma olhada em como ela ficou clicando aqui. E também foi pra página de downloads. Vale dizer que a única alteração é na arte e na diagramação da original – o conteúdo é absolutamente o mesmo.

Eu acho.