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O Lobo de Kandalis [Parte 3 de 3]

03/04/2011

A princípio tudo correu como Runadun esperava: o frasco se despedaçou espalhando a substância encantada e debilitando a criatura. Foi o suficiente para os dois correrem para longe enquanto o lobo voltava seu focinho gigante na direção da sua nova presa. Correram em meio às árvores, afundando aqui e ali na neve, retomando fôlego e se mantendo um na vista do outro, ainda que não muito próximos. O feitiço de desvio de rastro não servia de nada contra o lobo, que agora os farejava de verdade, e não com um radar espiritual embutido na cabeça. Ora aqui, ora ali o monstro estancava e se contorcia: sinal de que o espírito estava retomando seu corpo.

- Helirya, o que pretende fazer? – disse Runadun, quando se encontraram numa reentrância escondida de uma árvore velha.

Ela o olhou com aquela cara que as pessoas fazem quando alguém deliberadamente joga a responsabilidade de tudo nas mãos dela como se fosse um presente muito especial.

- Primeiro, faça outra daquela nojeira que fez agora há pouco. O efeito daquela já tá passando, e não vai adiantar eu jogar uma adaga nele do jeito que está.

Não ia mesmo. Com uma adaga-perene já enfiada num lugar errado, o espírito invasor ficava vagando que nem louco pelo corpo. Ele teria que ser debilitado do jeito certo pro exorcismo fazer efeito.

Runadun respirou fundo e obedeceu, pegando mais um pouco de neve do chão e mastigando-a com toda a vontade do mundo, com todas as outras coisas do feitiço. Helirya levantou-se devagar, e olhou por entre as frestas das raízes. O lobo estava parado e olhando diretamente para onde estavam.

Êba, ela pensou com ironia.

Êba, o lobo também pensou (mas sem ironia alguma), e foi andando com toda calma que um animal deformado meio-possuído pode ter na direção do esconderijo.

Droga, pensou Runadun, pois seus frascos usados como granadas haviam acabado. Ele cutucou a companheira, que olhou para ele por tempo suficiente para vê-lo com as bochechas cheias e apontando-as com os indicadores. Revirou os olhos e voltou a encarar o lobo. Pena que ele não estava mais lá.

- Corre, menino! – ela disse, saindo correndo. Runadun correu na direção oposta. Não viram o lobo em lugar algum, o que aparentemente deu a eles o direito de gritar no meio da floresta.

- Você vai ter que cuspir isso nele! – ela berrou.

Ele já tinha concluído aquilo, já estava tremendo de medo por isso e infelizmente não poderia gritar de volta a xingando, por razões óbvias.

Acabou que os dois se encontraram novamente, e nem sinal do lobo. Runadun imaginava que o espírito havia retomado o corpo da criatura, e seu feitiço estava os tornando invisíveis. Por isso o sumiço. Num rompante de coragem nunca antes demonstrado, arrancou o pingente que o protegia, e fez sinal para Helirya fazer o mesmo. Atiraram os colares para longe, fazendo com que em menos de alguns minutos o seu perseguidor aparecesse.

- Boa sorte! – ela sussurrou.

- ! – ele não disse.

Estavam de frente para o lobo. Ele avançou num salto assustador, e foi atingido em cheio no peito pela cusparada do exorcista, o que deixou o animal tonto e o fez tombar, estrebuchando por alguns segundos e ficando imóvel em seguida. Aquilo não ia durar muito tempo, mas foi o suficiente para os dois caçadores se aproximarem mais: Runadun agora entoando seus mantras de expulsão enquanto Helirya mirava sua última adaga-perene na cabeçorra cambaleante do monstro.

Dessa vez ela ia acertar (mesmo).

Vamos olhar bem para a adaga enquanto ela voa pelo ar. Sua lâmina é do mesmo tamanho que a distância do punho à ponta do dedo médio de Helirya, e foi forjada especialmente para ela, como eram feitas quase todas as adagas-perenes de quase todos os caçadores. Feita de ferro puro e tratado por semanas com rituais específicos, era praticamente inútil quando usada como uma adaga comum – como quando a caçadora usava alguma delas para descascar batatas, despertando ataques de fúria em Runadun.

Então ela acertou (como já previsto).

Quando uma adaga-perene penetra o suficiente no corpo de um hospedeiro a ponto de atingir muito bemuma parte do seu sistema nervoso, seu encanto é ativado e funciona como uma chave.

Ou uma válvula. Talvez um interruptor. Fato é que ela não expulsa o espírito do corpo de seu hospedeiro, mas corta suas amarrações com o controle do mesmo: o invasor fica preso na carne que quis invadir, e sem domínio algum sobre ela. Caso não acerte direito, o espírito só fica com dificuldade em controlar o corpo, e a consciência do hospedeiro se manifesta com mais força.

O melhor é que pra acabar logo a história, Helirya acertou bem no meio dos olhos do lobo; a lâmina da adaga se enfiou quase inteira no crânio do monstro, prendendo o espírito ao mesmo tempo em que o animal morria. Ossos do ofício. Nem sempre era possível manter o hospedeiro vivo, especialmente quando ele é um monstro de três metros de altura ensandecido.

Ainda com a adaga enfiada na besta, Runadun recitou as últimas palavras do exorcismo, expulsando definitivamente o invasor de volta para o Outro Mundo. Helirya cortou a cabeça do lobo, não só para garantir que nenhum espírito tentasse possui-lo novamente, mas principalmente para provar que o trabalho estava terminado. Enrolou-a num pedaço de pano preto e jogou nas costas feito uma mochila.

- Hora de falar com o nosso marquês – disse.

- E cobrar a diferença?

- Como sempre – suspirou – o que esses nobres têm na cabeça? Todos mesquinhos e filhos da mãe que não hesitam em torrar todo o ouro que têm nas feiras da capital, mas que se recusam em pagar por um serviço decente da Guilda.

- É assim que continuam ricos.

- É. É assim.

Resmungando e praguejando, os dois voltaram a Kandalis.

Vamos cortar para a parte mais legal. Pessoas na cidade agradecendo, crianças sorrindo felizes, soldados ovacionando sua passagem, adolescentes aspirantes a soldados ovacionando sua passagem curiosos pela nova mochila ensangüentada de Helirya, etc. E lá estava o marquês no topo da escadaria do castelo.

- Isso vale cinco vezes o que nos pagou, Dimiron.

Helirya era conhecida por ser capaz de causar, com uma frase, o mesmo efeito de chutar uma porta de madeira e derrubá-la no meio de uma briga de taverna. E parar a briga. Nesse caso, a frase foi acompanhada por uma cabeça de lobo gigante atirada aos pés do marquês.

Ele não fez nada além de ficar quieto e apertar as têmporas.

- E caso não queira pagar, meu amigo aqui é capaz de quebrar os feitiços que fez, só pro espírito voltar e perambular por aí de novo.

Claro que Runadun não era capaz de fazer isso. Era contra seus princípios, completamente proibido pelo regimento interno da Guilda, mas acima disso tudo era especialmente útil para exigir pagamentos decentes. É claro que o marquês não fazia ideia disso, apesar de suspeitar severamente dos métodos nada éticos de Helirya como caçadora.

- São negócios, acima de tudo – disse, enfim, sem tirar os olhos da cabeça monstruosa no chão, que o convenceu muito bem – Justo. Terão seu pagamento.

- E uma recomendação. – Helirya emendou.

Ele a encarou, incrédulo, como se ela tivesse dito que a mãe de alguém parecia gorda, pouco antes de ser queimada num funeral.

- E uma recomendação – concordou ele. – Mandarei meus mensageiros espalharem seu feitos nos feudos vizinhos e louvar os serviços da Guilda. Obrigado, senhora Nusura.

- Disponha. – ela sorriu como se a missão tivesse sido a coisa mais fácil que já fizera. Sempre fazia isso: aumentava sua fama de durona enquanto seu ego era alimentado pela cara de medo que as pessoas faziam ao encará-la. Runadun não fazia nada além de suspirar.

Assim que receberam suas cartas comerciais assinadas por Dimiron, além de algumas moedas trocadas para uso por ali mesmo, passaram na feira da cidade para repor ingredientes, afiar suas armas e descansar numa hospedaria, do modo mais espalhafatoso e incrível possível, como

Helirya gostava de marcar sua passagem. No fim das contas, de Kandalis levaram seu ouro, um pouco mais de fama e algumas quinquilharias novas.

Runadun comprou frascos de vidro. Helirya comprou muitas maçãs.

Um Comentário leave one →
  1. 05/05/2011 10:58 PM

    muito bom o post brunão
    vou continuar acompanhando aqui
    abraço

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